terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Ela gosta do efeito que causa

Ela é duas mulheres em uma só, dois espíritos, duas essenciais
igualmente livres, mas distintos, um é doce, outro é absinto.
Tolice seria dizer que trata-se de um paradoxo: que mulher não é?
Como ela? Poucas certamente, afinal, trata-se de um mistério:
Fogosa e provocante, mas calma e em paz consigo mesma.
Ela sabe quem é e o que quer, sabe as armas que tem
[e gosta de usá-las].
Paz e tempestade, manhã e madrugada, ela sorri e faz-se um frenesi
há milhares de possibilidades ao gosto dela e é assim:
sem dramas, vestida ou nua, de um jeito ou de outro ela é dona de si
Ah, como ela gosta de usar as armas que tem,
seja o olhar, a leve mordida no lábio inferior, os dedos a brincar
no profundo do decote... apenas alguns dos recursos que usa
e que a fazem vibrar excitada - "que eu fiz?" -
satisfeita consigo e com o efeito que ela causa.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Um grão de areia

Não quero saber de outro meio, caminhos aprazíveis não me interessam
mas a sedução me atormenta, prazeres deliciosas arranham minha pele
palavras doces sussurram no meu ouvidos propostas indecentes,
o sexo intumesce, eu vejo miragens e vacilo à beira do abismo.

Balanço a cabeça inutilmente tentando afastar o canto enfeitiçante
que ignora as barreiras que eu, tolo, achei que estavam lá.
Esfrego os olhos, não é o que está diante de mim que vejo
e uma torrente me arrasta para onde eu sei que não quero ir.

Mas não, não quero ir no caminho que meus pés já sabem de cor.
A eternidade, como um grão de areia no escuro da minh'alma,
faz-me ter sede, fome e saudade daquilo que meus olhos não podem ver.
Então não, não quero ir no caminho que meus pés já sabem de cor.


sábado, 30 de novembro de 2019

Um pouco de mar


Que nessa insana correria que é a vida haja um tempo pra respirar,
uma rede pra se balançar, uma banheira onde se esquecer,
sexo para se perder, um abraço onde se encontrar,
um porto seguro para onde possa fugir
e coisas bobas que te façam rir.


É preciso que haja algo de flor em tudo isso
um "quê" de mistério que alivie os dias cinzas e infindáveis.
Sim, haverá drama, reviravoltas, vilões e mocinhas
e não só o mar de figurantes insonsos, calados, inamáveis.
E haverá um pouco de mar, sim, pelo bem da minh'alma, haverá!

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Ela é um encanto que eu descobri aos poucos


Que ela é um encanto eu descobri aos poucos

como quem desperta para um mundo novo
tão fascinado que pouco crê no que seus olhos veem.

Tão fascinado que lamento os segundos que perdi
e agora me pergunto como torno em beijos meu encanto
e faço do meu fascínio carinhos no seu corpo perfumado
e que ela após mil orgasmos fique a sorri.

Ela é de uma complexidade alucinante
e toda vez que se maquia com seus lábios de batom
e toda vez que sorri divertindo-se como uma menininha
e toda vez que faz hora, rebola, cai de boca na minha...
são milhares as vezes em que ela é mais que minha amante.

É o mais sensual fascínio em forma de mulher
Seus cabelos ao vento espalhando o perfume que atiça
Lúdicos pelos púbicos exalando o cheiro que mostra que ela quer
dedos, boca, nossos corpos num vai-e-vem de faiscar.

Sexo é divinal, amor é animal; mas se o amor gosta de transar?
E quando o amor convida amigas como a safadeza e a lascívia
e todos pegam carona com a ousadia até o sol raiar?

Ela é um encanto que eu descobri aos poucos
como quem desperta para um mundo que é sempre novo.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

O mundo desaba dentro de mim



O mundo desaba dentro de mim com a velocidade de um raio mas também tão previsível como o círculo vicioso cujas ondas impelidas pelos pedaços do meu mundo que cai ainda mais fortemente avançam arruinando-me as encostas e fazendo-me desabar aos poucos enquanto fracassam todos os meus esforços de em algo me agarrar e de mais um fôlego tomar antes que essa trilha sonora docemente fúnebre avance sobre cada recôndito de minh'alma fazendo-me capitular

sem chorar
antes mesmo de plenamente amar

como se às misérias eu devesse me apegar e tão somente delas saciar minha fome que é sempre maior de algo que nem sei o nome que parece de mim se afastar enquanto eu me desfaleço no caminho como se para isso mesmo tivesse sido feito de uma matéria prestes a desandar antes de o céu tocar e a plenitude de tudo o que existe me fosse como um brilho nos olhos e um gosto na boca e um aroma no ar a me guiar como uma bússola à fonte e ao altar onde tudo um dia há de se encontrar.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

A mulher xingada



Os homens são xingados de canalhas, desgraçados, covardes,
Em ofensas que atendam contra seu caráter e hombridade.
Quando os xingamentos fazem alusão à sexualidade
São chamados de filhos-da-puta ou cornos, em agressões
Diretas às esposas ou em impropérios dirigidos às suas mães.


Assim, as mulheres sempre e invariavelmente, quando xingadas,
Nunca são ofendidas em seu caráter, quando agredidas verbalmente
O alvo é sua sexualidade e elas tornam-se putas, vagabundas ou safadas,
Cadelas, biscates ou vadias, ou também desavergonhadas ou mal-amadas,
De toda violência contra a mulher, tal forma de falar é o fruto e a semente.


Há, você protestará! Então haverá forma certa de – uma mulher – xingar?
Faz-se tolo, ou de fato o é, quem julga não perceber a maldade que há
Em desprezar e moralmente ferir apenas para sua frustração recompensar,
Pois desde que Tirésias afirmou diante de Zeus e Hera que o prazer é dela
Exime-se da culpa quem ofende o corpo e os amores dela, esfacela.

sábado, 9 de novembro de 2019

Mate e faça morrer




Você já deveria saber que há uma lei não escrita que diz
que aquilo que te mata, matará, se hoje não morrer
e já que nesse jardim só floresce o que o jardineiro quis
não há a quem culpar, apenas arrancar o mal pela raiz.
Ouviu? A besta fera que tem o seu nome começa despertar
Aconselho-te a fazer já, agora mesmo, sem hesitar:


Estrangule, não permita que respire, mate e faça morrer
seja firme, meta até o cabo a faca e não tire,
há coisas que hoje, hoje mesmo, é preciso fazer.
Não seja frouxo, mesmo que suas mãos tremam
Não se acovarde, mesmo com o suor frio
Não volte trás, ainda que as lágrimas corram como um rio.