quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Implacável

Não seja ingênuo,
até nas histórias infantis há inimigos que devem ser mortos,
impedidos a qualquer preço, destruídos sem piedade.
Não seja cético,
Sorrir é bom, mas eles não vão parar e não irão aliviar
vão te esmagar se você deixar e hão de gostar disso.
Vê, não é pessoal,
É a simples natureza das coisas, do conflito nasce o futuro.
Então vire-se e olhe nos olhos seus temores, o próprio destruidor
Ou a luta te perseguirá até o fim,  implacável, até o seu interior.


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Canto


Ao brilhar uma estrela quando a noite enfim
Revela seus mistérios e corre pelo espaço
Entre seus lábios entreabertos como uma via-láctea a brilhar
Fico a imaginar um beija-flor que vi alegre a pairar
Tocando de leve uma flor como agora o vento
Em seus cabelos a brincar... uma borboleta no vale.

Canto a ti, ó mulher, ó amada, ó belo estranho bem
Tua sobriedade, tua beleza, seu viver suavemente
Meu peito abre-se e recebo de ti o sem brilho a inundar
Meu medo calou-se, sumiu onde provem torrentes límpidas
Que regam meus olhos com essa beleza sólida
Na ponta dos dedos a tocar-me suavemente.

És o fogo em movimento a surgir da brasa, da madeira, da terra.
Seu calor exala da pele, dos olhos, da tenra paz a envolver-te
Seu desejo é livre e traz o sol pela manhã que chega e envolve
O dia e o seu corpo forte e esguio a integrar essa intensa harmonia
A soar e reboar pelo céu, dentro do peito a inundar de vida
Sutil como um toque rápido, como um sorriso, seu olhar.

Calmas... tuas mãos tocam de leve como o teu coração a bater
Em mim, sem aviso tua ira explode para conter-se numa lágrima
Que sorvo, bebo dessa essência que estranhamente me rege.
Libertas... todas as aves, todos os pés leves a valsar
Na balada de sons que acompanhas, que inundam sua pele alva
Que a fazem inteira, singela... choras num secreto, quieta.

Porque choram seus olhos? Tremem suas mãos, amargo tremor
Teus olhos contemplam tristes, cálidos e úmidos o entardecer
Me congela sua expressão vazia de tudo, vazia de mim
Você se esvazia da glória, do poder, da vida
Pra sê fraca, pequena e quieta ver melhor a noite amanhecer
Enquanto  descem vagarosas as lágrimas suas.

As lágrimas descem vagarosas, roubaram o brilho, tirou-lhe o sol
Um gesto hostil é um muro de pedras, uma fria lápide
A sepultar a essência, o grito da liberdade, a paixão
Que mostra o caminho à fonte do coração, ao jardim
Onde as flores sofrem sozinhas a dor que lhe traspassa agora.
Ó doce estranho bem, vive pois novamente pois vives em mim.

Porque é tua serenidade tão bela? É suave teu rosto
Tão tenra é sua presença, teu espírito tão doce
Porque és assim? Se eu cantar não olhas, se eu gritar não vens?
É tão branda a resistência em ti, vem-me o pavor.
Teus punhos feridos, tua cabeça erguida aflora a vida
Teu beijo é melhor que o vinho, é a melhor bebida.

Foi terrível aquele amanhecer, terrível aquele acordar
O sol opaco, o peito seco, o coração incinerado
Teu brilho morno, teu fogo apagado, teu cântaro vazio.
Contra os dragões, contra os chacais, contra peste tua beleza vívida
A abri-se mostrando o poder, graça incandescente a fluir
Até que ao céu alçaste vôo... conquistaste a eterna paz.

Agora, erguida enfim sobre os pagãos em triunfo
Os quatro ventos da terra testemunham seu caminhar
Como um mar revolto treme a terra deserta
Ao se arrebentar o silêncio em sons, ginga e alarido:
É o grito uníssono dos homens que bradam, faz-se dia.
É a tua boca a exalar a vida. Oh! Pois vives em mim.


De algum nas minhas paixões adolescentes

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Há um mar em mim

Há um mar aqui, há um mar em mim.
O espaço parece pequeno, mas é como naquelas histórias de magia
Uma vez dentro, o horizonte se estende a perder de vista.

Há um mar em mim, nunca tranquilo, nunca faz-se mar calmo.
No seu profundo habitam criaturas medievais
que não estranham os barcos futuristas riscando a superfície.

Há um mar aqui com águas infestadas de pensamentos aleatórios
desejos canibais seduzem ideias que se movem velozmente.
Planos acéfalos e amores tóxicos são cardumes nessas águas.

Há um mar em mim e sempre a transbordar
avançando e recuando como quem dança arrebentando sobre as pedras.
Em você também, se amar, haverá um mar.

11 de Outubro, 2019.



quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Diagnóstico



Estou com câncer, descobri hoje que o que acontece em mim não é um resfriado, uma gripe ou virose, não é dengue nem febre amarela, é câncer. A descoberta veio com a sutileza de um soco no estômago, de um tapa estralado no rosto. É câncer o que corrói minha carne, devora cada parte sadia de mim; como um exército disciplinado ele espalha conquistando os recônditos do meu ser. Um sorriso sarcástico me chega aos ouvidos, meu remorso é patético. 

O homem que se acha tão simples e sábio, com seu ar professoral e coisas sensatas para dizer; recebe como uma cusparada de lucidez no rosto. E a senhora lucidez simplesmente mostra o que ninguém, inclusive eu, quer ver: é câncer o que está comendo minha carne, é câncer o que apodrece meus sonhos e faz da minha dignidade uma brincadeira de mau gosto. 

Pareço o irmão mais velho do filho pródigo – hipócrita e medíocre, pareço o irmão mais velho de Jacó – inconsequente e tolo, pareço o carcereiro da cidade de Filipos – carecendo que a minha cela seja também sacudida por um terremoto. 

Certo homem disse que o melhor de nós é como trapos de imundícia, pois eu tenho impecavelmente me vestido dos meus sujos trapos; ordeno-os de tal maneira a cobrir com eles minha nudez. Mas o odor fétido da minha carne já impregna minhas roupas e minhas palavras, meu olhar denuncia a perversão que nem meus lábios sabem mais dissimular. 

Estou com câncer, podia já estar totalmente curado, mas resolvi tempos atrás deixar uma parte de eu apodrecer. Uma necessidade irracional me movia, me move e consome, um desejo por deixar morrer cada parte de mim, uma sede que me faz mergulhar no abismo para beber. Apenas alguma coisa em mim impede que desde agora eu me renda, alguma coisa impede que meus joelhos se dobrem em desistência e uma voz muda me estimula à resistência.

Um sorriso sarcástico tripudia do meu remorso, cada parte de mim rapidamente se corrompe, resta somente um último esforço para viver, para redescobrir a vida e reviver não mais como o cancerígeno doente terminal que tenho sido.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Amizade



Dizem que amizade é como um laço invisível
que une pessoas pelos mais variados motivos
nem que seja com um pretexto risível.
pois até sem razões ela causa sorrisos.


Só isso explica o laço que de repente se fez
Tão natural que talvez me apaixone
Mas não é provável que aconteça e talvez
Seja amizade que disfarça uma vontade que não some.


E daí que ainda não vi os tão mel olhos dela
E nem o sorriso sei dela apenas o nome.


E daí que nessa amizade bem podia ter lascividade
Pois nessa idade tudo o que mais temos é fome.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Lucidez


As melhores coisas acontecem quando não esperamos. É a vida nos fazendo lembrar que o deslumbramento e o encanto, a surpresa e o espanto são tão necessários como o respirar. As piores coisas acontecem quando mais as tememos. Mas nem todas, algumas só nos lembram que somos humanos e, embora especialíssimos, também estamos sujeito às leis, da gravidade, por exemplo, da relatividade, outro exemplo, do mercado, ainda outro. 

Quando eu era pequeno queria ser bombeiro, me imaginava enfrentando o fogo e escalando prédios em chamas para salvar vidas. Depois, queria ser policial rodoviário; não sei bem por que. Depois... eu já estava grande demais para saber bem o que queria ser. Quanto mais crescemos menos sabemos, bem pequenos queremos ser isto e não aquilo.

Depois crescemos e os desejos se multiplicam, a cobiça e a inveja entram no nosso mundo e já não sabemos de nada, exceto que queremos competir e vencer. Queremos dinheiro, sucesso e tudo o mais que podermos agarrar a fim de impressionar as pessoas certas (certas?). Dizem que só recobramos a lucidez, que tínhamos quando crianças, depois, bem depois... Só então nos lembramos que as melhores coisas da vida acontecem quando não esperamos, acontecem assim, simples como o desejo de uma criança. Percebemos que mesmo as piores coisas são um sopro de lucidez que também faz lembrar que o encanto e o espanto não podem se perder.

Estou buscando a minha lucidez de outrora, ela tem a aparência de um velho navegante atravessando um revolto rio.


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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Dia 27



Há homens piores do que eu; mais patéticos? Não.

Sei que há aqueles que são mesquinhos ou malvados

como eu dificilmente serei.

Há homens covardes e estúpidos

que me superam também na irresponsabilidade

e na frouxidão.

Mas duvido que dentre todos eles

haja um, tão somente um

vergonhosamente patético como eu.




***minha paupérrima, mas honestíssima versão do magistral Poema em linha reta, de Fernando Pessoa.