terça-feira, 20 de agosto de 2019

História de um infeliz

Sei da história de um infeliz que fingiu tanto ser parte de um mundo que não era o seu, que a máscara se apegou à pele e a única coisa que restou, a única coisa que denunciava sua condição de forasteiro era um sentimento tão íntimo que quase insondável de desajustamento.

Uma leve, mas em todo tempo perceptível sensação de ilegitimidade.

Fato deveras significativo é que algumas pessoas imediatamente se solidarizam com esse infeliz,
logo se percebem compartilhando dessa sensação.

Não importa o quanto imprecisas as informações ou obscura a tal sensação.
Alguns imediatamente entendem do que se trata e instantaneamente nomeiam aquela coisa estranha que também trazem na alma que sempre parece sussurrar algo inaudível.

Agora sabem, ao solidarem-se com o pobre infeliz, percebem num instante o que o sussurro diz:
“Você não é daqui”.




.

Dia 7



Depois de, mais uma vez falhar, a gente começa a se conhecer
Entender que há um descompasso entre o que somos e o que imaginamos.
Reajusto a rota, podo um pouco as expectativas,
Reduzo meu ímpeto,
Controlo a respiração,
Calo-me.
Sem promessas, sem votos,
Apenas um único desejo, um único alvo, um passo de cada vez,
Antecipo o escorregão e mudo a passada,
Prossigo devagar, conhecendo-me, avanço.

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Tesão

Sonhei que a namorada e eu estávamos numa praia
ela, sempre deslumbrante, ainda mais num biquíni pequenininho
enfeite perfeito no corpão dela, levemente dourado de sol.

Um rapaz simpático se aproximou e começamos a conversar
Ele pediu, educado, se podia dá-lhe uma abraço
E ela, olhando pra mim, sorriu dizendo que sim.

Ele vestia uma sunga que acomodava sua ereção evidente
Que esgueirou-se para fora talvez pela fricção dos corpos
Olhei o mastro comprimindo-se contra a cintura dela
Olhei com ciúme, algo de raiva, e indisfarçável tesão.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Dia 6


Persistência é a qualidade menos notada nos vencedores.
Deles admiramos a coragem, a astúcia, a habilidade.
Ficamos impressionados com sua força e velocidade
Sua graça nos encanta, o sangue frio, a técnica refinada.


Mas quantos vencedores vencem sem perseverança?
Quantos triunfam sem recomeçar mil vezes após o fracasso?
Quanta força interior, quão resistente deve ser o espírito de quem
abatido mais uma vez decide recomeçar quantas vezes preciso?

Dia 5


Quando nenhuma força é exercida sobre eles, a tendência dos corpos é permanecer em seu estado natural, ou seja, repouso ou movimento retilíneo e uniforme.

(Primeira Lei de Newton, ou Lei da Inércia)


Deixar as coisas como estão só agrava a atual situação.
Se sua rota é ascendente, a tendência é que continue assim;
mas se você está caindo em direção ao abismo,
é exatamente isso que acontecerá se você não agir.

É preciso uma força, encontrar, descobrir o impulso necessário
que nos coloque em movimento após tanto tempo de inércia
ou interrompa a ação autodestrutiva que nos precipita
... naquele vazio das coisas e das pessoas que nunca foram.

Dia 4



"Um homem não está acabado quando enfrenta a derrota. Ele está acabado quando desiste".

Richard Nixon

Dia 3



"O que não é terrível não é sofrer nem morrer, mas morrer em vão".

Jean-Paul Sartre

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Dia 2

Não é fácil como dizem
Fazer uma limonada com os limões que lhe atiram
Relaxar sabendo que depois da tempestade vem a bonança
Desistir de dois pássaros voando por já ter um na mão.

Uma vez ouvi que se conseguisse correr por 15 minutos
não estaria longe de conseguir correr uma meia maratona.
Afundado no sofá eu pensei: "15 minutos? é moleza!".
No dia seguinte, tênis nos pés e cronômetro da mão, lá fui eu

Corri, corri, corri, corri... até o corpo implorar para parar
Ofegante, diminui o ritmo e espiei o cronômetro
"já deu 15 ou quase" - pensei antes de parar olhando incrédulo
o número no cronômetro: 7 minutos e alguns segundos.

É quando nos lançamos num desafio que nos descobrimos
arruinados, fracos, fora de forma, viciados em comodidades.
O que imaginávamos vira fumaça num segundo e você sabe:
Ainda irá cair muito antes de tornar-se aquilo que nasceu para ser.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Dia 1

Dia 1 de um propósito em que já fracassei mil vezes
Dia 1 de uma jornada em que tento ser melhor
Sem ser um babaca, arrogante, sem ser mais um farsante.
Dia 1 em que busco, mesmo que incrédulo, um alvo distante.

Sempre fui elogiado, inteligente, gentil, bom moço, capaz
Às virtudes intelectuais, somou-se outra, pauzudo e viril
Enquanto amigas reclamam dos namorados débeis e frouxos
Eu me orgulhei do macho que eu era, um canalha sutil.

Descobri-me viciado em pornografia, sacanagem, azaração
A inteligência e a facilidade para aprender, desprezei
Como se não precisasse, de fato, aprender, lutar, melhorar
O tempo passou e chego aos 40 com vergonha de mim.

Dia 1, hoje, 14 de Agosto de 2019 é o meu dia 1
Não precisei de nenhum sermão, simplesmente aconteceu.
Basta de ser uma sombra do que poderia ser, uma farsa sem fim
Chega de ser babaca, prefiro me arrebentar a  terminar assim.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Bosta

Talvez nunca tenha acontecido com você; mas hoje, ao orar, não achei forma melhor para me descrever diante do Eterno.
"Perdoa-me Senhor, eu que sou tão...... bosta".

É provável que o Eterno não tenha ficado irritado com meu linguajar, mas balançado a cabeça em silenciosa concordância.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

O salto



quero saltar
meus pés cautelosos se aproximam do precipício
não quero me entregar à morte
quero o outro lado do abismo.

mas é longe
é distante aonde quero pousar
me dá vertigens olhar aonde posso cair
é quase insensatez o quanto terei que voar.

talvez meus erros
ou o destino aos tropeços me trouxe aqui
mas só me resta um acerto ou um derradeiro erro
do outro lado pouso ou lá embaixo... caio.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Sensato?



sensato? 

pode ser 

mas 

algumas 

vezes 

me 

acho 

apenas 

um filho da puta de um covarde.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Inferno




Quanto ao inferno,
há o que lá estão e aqueles outros
que para lá estão reservados.


Seria, por acaso, menor o tormento destes
sendo que a todo instante podem ouvir
o ruído metálico das garras a afiar
como se houvesse já chegado a hora
das carnes de mais um desgraçado retalhar?

Desejo


Viu-a envolvido num ar de superioridade tão falso quanto uma nota de cinqüenta em sua carteira no final do mês e foi logo a detestando em seu pensamento secreto enquanto seu olhar escancaradamente a cobiçava deixando claro que em matéria de mulher quem manda é o olhar que dispara o gatilho que faz pulsar toda a máquina que ameaça desfalecer se o nariz não cheirar o perfume e a língua não provar o gosto e a mão não tocar a pele e o corpo não se apertar contra o dela que passa sem notar e bem faz em fingir que não vê o jeito bobo dele que mesmo assim ainda insiste em achá-la metida talvez dando razão para o ditado que diz que quem desdenha quer comprar.



terça-feira, 11 de junho de 2019

Lá fora



as verdades que desconheço e tanto anseio
estão lá
lá fora onde se esconde esse mistério
silencioso
insinuante através das sombras
se escondendo
ora me espreitando
ora dos meus passos
fugindo
me atraindo para ir lá
lá fora
onde me esperam as incertezas
onde são tantas as sutilezas
onde desmoronam as fortalezas
que me mantêm aqui
a salvo
dos mistérios que me esperam
lá fora.

sábado, 8 de junho de 2019

Desabafo



Você vê uma foto dos seus amigos ao redor de uma mesa, brincando e sorrindo, e comenta: "Ai, como e gostaria de estar ai com vocês".
Uma esposa vê a foto do marido com os filhos na maior diversão e diz: "Queria estar no meio dessa bagunça".
Um cara fica sabendo que seu amigo fez algo louco e diz abraçando-o fortemente: "Porra cara, como eu queria ter estado junto nessa".

A pergunta simples é: Será?

Será que se você estivesse junto teria acontecido aquele momento legal? Será que se a esposa estivesse com o marido e os filhos haveria aquele momento de diversão? Será que esse cara, se pudesse, realmente se jogaria ou atrapalharia a loucura do amigo? Não são poucas as pessoas que sistematicamente sabotam aquelas coisas que eles dizem admirar.

Volta e meia contamos mentiras para nós mesmos. Falamos que adoraríamos ter estado naquela diversão, mas, quando podemos, nunca estimulamos ou tomamos parte. Lamentamos as oportunidades perdidas, mas todas as vezes que elas aparecem nós temos ótimas razões para dizer "dessa vez, não".

Você certamente dirá que não é seu caso, mas não custa perguntar: Acontece com você?

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Adeus



Adeus” - A palavra não saía dos lábios, as bocas que tanto haviam se beijado se recusavam à despedida, os olhares se devoravam, as mãos ansiavam por dedos entrelaçados... e ainda assim a palavra estava ali - "adeus". 

A flor que ele trouxe era o último presente, sempre havia flores pelo caminho quando ele ia encontrá-la, sempre havia o sorriso dela ao vê-lo com os braços cheios das mais variadas flores e ramos, sempre havia perfume em seu ninho de amor. A palavra que sufocava e umedecia os olhos sem ser uma vez sequer pronunciada causava um enorme silêncio, um silêncio cheio de gestos vagarosos e olhares demorados como que gravando para sempre na memória cada detalhe. Era estranho, porque seus encontros sempre estavam cheios de palavras, a poesia era tamanha, as músicas que sussurravam no ouvido, os sorrisos que ecoavam pelo vale. Deitados olhando o céu ele se deliciava com a voz dela falando e falando e falando, fazendo-o sorrir e sonhar de olhos abertos ao som daquela doçura que enchia seu mundo. 

Mas hoje - "adeus" - essa única palavra sem ser ouvida causava uma imensa dor enquanto ele a abraçava aspirando o perfume em seus cabelos e tentava não olhar o horizonte para não adiar nem em pensamento o momento de vê-la desaparecer por entre as árvores levando na mão sua derradeira flor.



quarta-feira, 5 de junho de 2019

Thanks, God



Fantasmas chegam trazendo sombras à sua varanda
a temperatura cai e o verão em sua alma se vai.
Nada é como o que foi sonhado, tudo desmorona, desanda
nas roupas marcas de sangue e no rosto uma lágrima cai.


Sonho e rotina misturam-se e daí emerge uma coisa sem nome
não tem rosto essa parafernália de sensações.
A fé incendeia e a descrença me trai - o fogo que havia some
Sonho e medo fazem o peito pulsar como se houvesse mil corações.


Thanks, God!” - é fé, descaso ou saliva meus lábios de revolta?
Talvez teimosia, insistência de quem não quer morrer.


É a esperança de sentir o fogo de novo sob o gelo arder
Caminhar descalço e mesmo ao longe te ouvir: “volta”.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Mikhail Bulgakov

Tudo passa - sofrimento, dor, sangue, fome, peste. A espada também passará, mas as estrelas ainda permanecerão quando as sombras de nossa presença e nossos feitos se tiverem desvanecido da Terra. Não há homem que não saiba disso. Por que então não voltamos nossos olhos para as estrelas? Por quê?

Estou começando a ler "O demônio do meio dia: uma anatomia da depressão", um best-seller de Andrew Solomon. A frase acima é a epígrafe do livro.

Parafernália



Porque você, eu, a gente não é uma coisa só,

a gente é um monte de coisas reunidas

que você não sabe o nome,

que a gente vai descobrindo aos poucos,

se maravilhando e se horrorizando.



Quem é todo santo ou pecador por inteiro?

Que traste não tem um traço sequer de virtude?

Que herói não guarda a sete chaves instantes de covardia?

Que puta não é também apenas menina ou poeta que é leitor?

Pois se os rótulos são autoritários, a vida é mil faces num espelho.

O beijo



Todo o resto passava por ele sem despertar nenhum interesse.

O vento e as folhas passavam voando ao lado,
os berros irados de quem não tinha mais importância, também.
O medo antes tão perto e dono de tudo agora passava ao lado
causando tanta comoção como as folhas.

Foi como uma explosão que a gente sente lá dentro
em algum lugar entre o peito e o estômago
cujos efeitos se vêm nas mãos e no riso incontido,
nos olhos vidrados e nos braços estendidos
em torno do abraço que continha aquele beijo
que sempre recomeçava antes de esmorecer.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

As minhas horas




Tem horas em que são mil as coisas que quero
Noutras horas, apenas uma espero.

Há aquelas horas em que sou invencível
Mas também há quando me sinto desprezível.

Tenho horas de um transbordamento de ternura e amor
Mas também tenho aquelas de desprezo e rancor.

Tem horas que sou brilho nos olhos, fogo e ousadia
Tem horas que sou medo, temor e covardia.

Tem horas que, admirável, como mestre ensino
Em outras, nada sou além de um menino.

Em certas horas sou belo, original e até atlético;
noutras horas incertas sorrio do meu jeito patético.

Quando me assombro ao perguntar como viver entre horas assim
Lembro-me que ainda bem, algumas horas são bem mais que outras,
E então, ao menos agora, meu coração se aquieta em mim.



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sábado, 1 de junho de 2019

História de um infeliz



Sei da história de um infeliz que fingiu tanto
ser parte de um mundo que não era o seu,
que a máscara se apegou à pele e a única coisa que restou,
a única coisa que denunciava sua condição de forasteiro
era um sentimento tão íntimo que quase insondável de desajustamento.
Uma leve, mas em todo tempo perceptível sensação de ilegitimidade. 

Fato deveras significativo é que algumas pessoas
imediatamente se solidarizam com esse infeliz,
logo se percebem compartilhando dessa sensação. 

Não importa o quanto imprecisas as informações ou obscura a tal sensação.
Alguns imediatamente entendem do que se trata
e instantaneamente nomeiam aquela coisa estranha
que também trazem na alma que sempre parece sussurrar algo inaudível. 

Agora sabem, ao solidarem-se com o pobre infeliz,
percebem num instante o que o sussurro diz: “Você não é daqui”.

Não pulei



"Eu fiz de conta que era um dia normal. Levantei, fui à escola, voltei para casa e subi no telhado do prédio. Meu pé direito já estava no ar. Bem quando ia pular, olhei para cima. Do outro lado da rua, uma família olhava para mim da janela do seu apartamento. Havia essa menininha com o olhar fixo em mim, e ela balançou a cabeça e cobriu o rosto. Por causa dela, não pulei.”


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Depoimento de um jovem de 20 anos que chegou à beira do suicídio em 2009 e mudou de ideia. O relato foi postado num tópico no site Reddit sobre os usuários da rede social que tentaram se matar.

Autofagia



Sei ocultar tempestades sob a calmaria

do meu sorriso.

Meto minha fúria mortal numa camisa de força

de um olhar inexpressivo.

Relaxo os ombros e afrouxo os punhos cerrados

enquanto de minha própria carne, me sirvo.


1 de Junho, 2019

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Insonso suplício



Não é só isso ou aquilo 

Insonso suplício. 

Nem é de aço meu peito para suportar seu descaso 

Frente ao meu malfadado martírio. 

E ainda ri 

De mim 

Causando-me borbulhas de raiva 

Que pressionam a rolha que por hora 

Impede minha boca de jorrar 

Rosnar. 

Maldita hora que me propus a isso 

Insonso suplício.

Assume o amor como um ofício

Assume o amor como um ofício
onde tens que te esmerar,

repete-o até à perfeição,

repete-o quantas vezes for preciso
até dentro dele tudo durar
e ter sentido

Deixa nele crescer o sol
até tarde,
deixa-o ser a asa da imaginação,
a casa da concórdia,

só nunca deixes que sobre
para não ser memória.

Eduardo White

Covarde



sensato? 

pode ser 

mas algumas vezes 

me acho 

apenas 

um filho da puta de um covarde.

Epigrama n.2



És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Cecília Meireles

Ruptura



Sou ruptura, fragmentos plurais
sou falta de consenso, rostos multifaciais.
Vivo a angústia de não saber o amanhã

a verdade que trago não é regra nem será espada
ela se esgota nesse momento, nesse lugar, nesse olhar.

Não tenho fundamentos que me deem a certeza de permanecer
mas tenho asas e posso voar
entre tempestades e raios me metamorfosear,
nem que seja só para conservar aquela beleza única e necessária.

Abaixo os tiranos, mesmo aqueles que vivem em nós!
Quero o desconforto de quem sempre procura

o estranhamento necessário de quem
tão logo acostuma-se a uma ideia
sente a inadiável vontade de retornar ao caminho
das imprevisíveis possibilidades.

Jim Morrison



Não me importaria de morrer num avião. 
Seria uma boa forma de ir. 
Não quero morrer dormindo 
ou de idade ou de overdose. 
Quero sentir como é... 
Quero saborear, ouvir, sentir o cheiro disso. 
A morte só vai acontecer uma vez; 
não quero perdê-la.

Bocage




Dizem que o chefe do inferno imundo 
tem entre as pernas um caralho enorme 
para meter no cu, deixar disforme 
a quem não foder bem cá neste mundo: 
Temei, prezados, esta dor terrível, 
esqueçam as repressões, tola mentira, 
fodam tranqüilos, quem não fode pira.

Sobre o amor



É só comigo ou é mesmo inevitável
que junto ao amor esteja quase sempre acesa a raiva
que ora desfaz-se numa leve irritação,
ora avoluma-se em ódio,
ora esconde-se num canto qualquer
para que a delicada e vaporosa felicidade passeie pela sala?

Uma única vez



Desde que alberguemos uma única vez o mal, este não volta a dar-se ao trabalho de pedir que lhe concedamos a nossa confiança.

Franz Kafka

a dois passos





Me ocorreu agora... 
anseio o céu que parece estar a dois passos,
mas sinto falta dos infernos que não vivi.

Ouça



Não é necessário sair de casa.
Permaneça em sua mesa e ouça.
Não apenas ouça, mas espere.
Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.
Então o mundo se apresentará desmascarado.
Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés.

Franz Kafka

Estranho-me

Estranho-me cada instante
não consigo me acostumar
meu eu é mutante
não é sábio subestimar.