quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Diagnóstico



Estou com câncer, descobri hoje que o que acontece em mim não é um resfriado, uma gripe ou virose, não é dengue nem febre amarela, é câncer. A descoberta veio com a sutileza de um soco no estômago, de um tapa estralado no rosto. É câncer o que corrói minha carne, devora cada parte sadia de mim; como um exército disciplinado ele espalha conquistando os recônditos do meu ser. Um sorriso sarcástico me chega aos ouvidos, meu remorso é patético. 

O homem que se acha tão simples e sábio, com seu ar professoral e coisas sensatas para dizer; recebe como uma cusparada de lucidez no rosto. E a senhora lucidez simplesmente mostra o que ninguém, inclusive eu, quer ver: é câncer o que está comendo minha carne, é câncer o que apodrece meus sonhos e faz da minha dignidade uma brincadeira de mau gosto. 

Pareço o irmão mais velho do filho pródigo – hipócrita e medíocre, pareço o irmão mais velho de Jacó – inconsequente e tolo, pareço o carcereiro da cidade de Filipos – carecendo que a minha cela seja também sacudida por um terremoto. 

Certo homem disse que o melhor de nós é como trapos de imundícia, pois eu tenho impecavelmente me vestido dos meus sujos trapos; ordeno-os de tal maneira a cobrir com eles minha nudez. Mas o odor fétido da minha carne já impregna minhas roupas e minhas palavras, meu olhar denuncia a perversão que nem meus lábios sabem mais dissimular. 

Estou com câncer, podia já estar totalmente curado, mas resolvi tempos atrás deixar uma parte de eu apodrecer. Uma necessidade irracional me movia, me move e consome, um desejo por deixar morrer cada parte de mim, uma sede que me faz mergulhar no abismo para beber. Apenas alguma coisa em mim impede que desde agora eu me renda, alguma coisa impede que meus joelhos se dobrem em desistência e uma voz muda me estimula à resistência.

Um sorriso sarcástico tripudia do meu remorso, cada parte de mim rapidamente se corrompe, resta somente um último esforço para viver, para redescobrir a vida e reviver não mais como o cancerígeno doente terminal que tenho sido.

19 comentários:

  1. O que dizer? força, estou aqui para o que precisares...

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    1. Olá,
      obrigado pelo carinho. O "câncer" aqui é uma metáfora de um sentimento, uma lembrança, um hábito ou vício que nos consome por dentro e que, indiferente aos nossos melhores esforços para combatê-lo, parece multiplicar-se infinitamente.

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    2. Que alívio Carlos, um beijo do tamanho do mundo!

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  2. Força e fé.... só tenho a dizer...
    Embora não nos conheçamos... gosto de te ler...
    Pena que a recíproca não é verdadeira!!
    No entanto...força e fé!!!

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    1. Que isso querido; estou muito ausente aqui e seu blog tem o efeito de prender-me por bastante tempo. Por isso, evito hehe

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  3. Fui pega de surpresa...fiquei sem palavras, daquelas que o possam confortar. Muita força e pensamento positivo.

    Bjocas
    Espero-te 💖


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    1. Olá,
      obrigado pelo carinho. O "câncer" aqui é uma metáfora de um sentimento, uma lembrança, um hábito ou vício que nos consome por dentro e que, indiferente aos nossos melhores esforços para combatê-lo, parece multiplicar-se infinitamente.

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  4. Olá, Carlos!

    Não sei se esse texto é real ou não, mas se a situação nele descrita for real, há que amar-se muito e fazer aquilo que os médicos indicarem, pke só temos esta vida, em minha opinião.

    Seu texto está mto bem escrito, mas contém uma raivinha, que todos temos, acho eu, numa circunstância dessas.

    deus, caso exista, não ama seus filhos, só posso concluir isso. Quem fuma mto pode vir a ter cancro de pulmão, mas há gente k fuma até aos 80/90 e não morre de câncer de pulmão, mas sim de velhice, portanto, ainda não há uma explicação cabal para essa enfermidade, mas a ciência está cada vez desenvolvida. Você vai vencer esta batalha e a guerra.

    Tenha fé no Universo, pois ele tudo equilibra e regenera.

    Abraços e as melhoras.

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    1. Olá Céu,
      Prometo escrever sobre essa raivinha rsrs (amei o têrmo).
      O "câncer" aqui é uma metáfora de um sentimento, uma lembrança, um hábito ou vício que nos consome por dentro e que, indiferente aos nossos melhores esforços para combatê-lo, parece multiplicar-se infinitamente.

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  5. Um dos melhores textos que li aqui neste blogue. Os outros também são bons, mas este me despertou maior afinidade. Parabéns pelo texto. Sobre a doença, já vi tanta coisa horrorosa nesta vida, de pessoas para pessoas, que falo sinceramente que um câncer não chega a ser uma dessas coisas horrendas. É um mal, sim. É grave, sim. Mas o ser humano e seu comportamento, muitas vezes, costuma ser igual ou pior que algumas doenças assim.

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    1. Olá Fabiano, grato pelo elogio
      O "câncer" aqui é uma metáfora de um sentimento, uma lembrança, um hábito ou vício que nos consome por dentro e que, indiferente aos nossos melhores esforços para combatê-lo, parece multiplicar-se infinitamente.

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  6. Se é ou não real o teu escrito, não sei! Mas, saibas que, por pior que seja a situação, sempre existe um modo de sairmos dela. Eu venci e você também vencerá. Dizer-te nesse momento que tenhas fé não basta, é preciso que tu queiras sair da situação com algumas cicatrizes, mas apenas isso, para lembra-te que é bom viver. Faça o que seu coração ordenar, mas, não te deixes abater pelas circunstâncias. Lute, lute como eu lutei e vença! Você pode... Se quiser. Deixo meu fraterno e forte abraço. Rezarei por ti. Fiques bem. E, se precisares de uma amiga, sabes onde me encontrar.

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    1. Imperatriz, que delícia ler o que escreveste, obrigado pelo carinho.
      Mas, o "câncer" aqui é uma metáfora de um sentimento, uma lembrança, um hábito ou vício que nos consome por dentro e que, indiferente aos nossos melhores esforços para combatê-lo, parece multiplicar-se infinitamente.

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    2. Que ótima notícia! Fico mais descansada. Mesmo assim, se precisares de mim, estarei aqui. Fiques bem! Abraços!

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  7. Também não sei se é real ou imaginado este texto. Espero que seja apenas ficção. Porque se é verdadeiro fico triste e desejo toda a coragem necessária.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Olá Graça. Grato pelo carinho, mas o "câncer" aqui é uma metáfora de um sentimento, uma lembrança, um hábito ou vício que nos consome por dentro e que, indiferente aos nossos melhores esforços para combatê-lo, parece multiplicar-se infinitamente.

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  8. Sou mais uma que também não sabe se o texto é ou não real. Mas caso seja, apenas me resta desejar-lhe muita força!

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    1. Oie, obrigado pela visita.

      O "câncer" aqui é uma metáfora de um sentimento, uma lembrança, um hábito ou vício que nos consome por dentro e que, indiferente aos nossos melhores esforços para combatê-lo, parece multiplicar-se infinitamente.

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  9. Carlo,
    Achei inteligente o teu espaço na Web e passei a seguir o teu blog.

    Sobre as metáforas da vida... Como disse com excelência, o psicanalista e teólogo brasileiro, Rubem Alves:

    "Pôr do sol é metáfora poética, e se o sentimos assim é porque sua beleza triste mora em nosso próprio corpo. Somos seres crepusculares!"

    Um abraço!
    Douglas

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